Dermatologia felina não é dermatologia canina: o que a ciência tem mostrado sobre a pele dos gatos
- Dra Iara Leles

- 12 de ago.
- 4 min de leitura

Quando um gato apresenta coceira, falhas na pelagem, pequenas crostas espalhadas pelo corpo ou lesões avermelhadas na pele, é relativamente comum que o responsável chegue à consulta com uma pergunta aparentemente simples:
“Doutora, isso é alergia?”
A resposta nem sempre é simples.
A dermatologia felina possui particularidades importantes e não deve ser interpretada como uma versão da dermatologia canina aplicada a um animal menor.
A forma como os gatos manifestam doenças de pele, sua microbiota cutânea e até a interação de determinadas bactérias com as células da pele apresentam diferenças importantes em relação aos cães.
Uma revisão publicada em 2023 no Journal of Feline Medicine and Surgery, por Older, Rodrigues Hoffmann e Diesel, reuniu o conhecimento disponível sobre o microbioma cutâneo dos gatos e sua relação com saúde e doença.[1]
Entre os achados discutidos pelas autoras está uma particularidade bastante interessante envolvendo bactérias do gênero Staphylococcus.
Staphylococcus: o que conhecemos sobre a pele dos gatos?
A pele saudável não é estéril. Ela abriga naturalmente diferentes populações de microrganismos que constituem o chamado microbioma cutâneo, e Staphylococcus faz parte desse universo.
Mas a relação dessas bactérias com a pele dos gatos apresenta características diferentes daquelas observadas nos cães.
Estudos demonstraram que espécies de Staphylococcus apresentam menor capacidade de aderência aos corneócitos felinos — células presentes na camada mais superficial da pele — quando comparadas aos corneócitos de cães e seres humanos.[1]
Essa é uma das hipóteses que ajudam a explicar por que as infecções bacterianas superficiais clássicas são reconhecidas com menor frequência nos gatos do que nos cães.
Mas isso não significa que gatos não possam apresentar infecções bacterianas de pele.
E é justamente aqui que os estudos mais recentes tornam essa história mais interessante.
O que acontece na pele dos gatos alérgicos?
Com técnicas modernas de sequenciamento, pesquisadores perceberam que a diversidade de microrganismos presentes na pele felina é muito maior do que aquela identificada pelos antigos métodos baseados apenas em cultura.
Em um estudo comparando gatos saudáveis e alérgicos, uma das diferenças encontradas estava na abundância relativa de determinadas populações bacterianas.
Staphylococcus estava mais abundante na pele dos gatos alérgicos.[1,2]
Outro estudo identificou diferentes espécies de Staphylococcus: nos gatos saudáveis, a maior parte das sequências estafilocócicas foi classificada como Staphylococcus epidermidis, enquanto nos gatos alérgicos houve predomínio de Staphylococcus capitis.[1]
O significado exato dessa diferença ainda não está esclarecido. Ela pode representar uma consequência das alterações que acontecem na pele durante a doença ou envolver mecanismos que ainda precisam ser compreendidos.
E aqui está uma distinção importante:
maior quantidade de Staphylococcus na pele não significa, automaticamente, infecção bacteriana.
Então, como saber se existe uma infecção?
É justamente por isso que avaliamos cada paciente.
Um gato pode apresentar inflamação importante sem necessariamente ter uma infecção bacteriana secundária. Em outros pacientes, entretanto, a infecção pode estar presente e participar da piora das lesões e do prurido.
A própria revisão de Older e colaboradores apresenta exemplos de gatos alérgicos com infecção bacteriana secundária demonstrada na avaliação citológica.[1]
Portanto, não devemos partir de dois extremos:
“Está inflamado, então precisa de antibiótico.”
ou
“Gatos quase não têm piodermite, então não pode ser infecção.”
Na dermatologia, procuramos evidências no paciente que está diante de nós.
Exames como a citologia cutânea ajudam a avaliar se existe uma população bacteriana clinicamente relevante, permitindo também o uso mais criterioso dos antimicrobianos.
No gato, uma lesão pode ser apenas o começo da investigação
Existe outra diferença fundamental entre cães e gatos.
Nos felinos, diferentes doenças dermatológicas podem produzir os mesmos padrões de reação cutânea.
Entre os mais conhecidos estão:
dermatite miliar;
alopecia autoinduzida;
prurido e lesões em cabeça e pescoço;
lesões do complexo granuloma eosinofílico, incluindo a placa eosinofílica.
Esses nomes descrevem como a pele do gato está reagindo. Eles não dizem, sozinhos, por que aquilo está acontecendo.
Uma placa eosinofílica, por exemplo, não representa necessariamente o diagnóstico final. Da mesma forma, um gato com alopecia provocada pela própria lambedura ainda precisa ter a causa investigada.
Entre os possíveis diagnósticos está a síndrome atópica cutânea felina (FASS), uma doença alérgica associada principalmente à hipersensibilidade a alérgenos ambientais.[3]
A FASS não possui um exame único que confirme o diagnóstico. Sua identificação depende dos sinais clínicos e da exclusão de outras causas capazes de produzir manifestações semelhantes, como alergia à picada de pulgas, outros ectoparasitas e alergia alimentar.[3] Conforme o padrão apresentado, outras doenças dermatológicas e até alterações comportamentais também podem entrar na investigação.
Por isso, dermatite miliar, placa eosinofílica, alopecia autoinduzida ou prurido em cabeça e pescoço são padrões de reação, e não sinônimos de atopia.
Dermatologia felina não é dermatologia canina
Talvez essa seja uma das principais mensagens que os estudos atuais deixam para quem convive com gatos.
A relação da pele felina com Staphylococcus é diferente. A maneira como os gatos manifestam doenças dermatológicas também é diferente. E pacientes com lesões aparentemente semelhantes podem ter doenças de base distintas.
Por isso, a presença de bactérias, a inflamação e até a aparência das lesões precisam ser interpretadas dentro do contexto de cada paciente.
A dermatologia felina tem características próprias.
Compreender essas diferenças permite investigar melhor, utilizar medicamentos de maneira mais criteriosa e, principalmente, construir um tratamento direcionado à doença daquele gato —— e não simplesmente à aparência da sua pele ou à atribuição precoce do diagnóstico de “atopia”.
Referências
Older CE, Rodrigues Hoffmann A, Diesel AB. The feline skin microbiome: interrelationship between health and disease. Journal of Feline Medicine and Surgery. 2023;25(7). doi:10.1177/1098612X231180231.
Older CE, Diesel A, Patterson AP, Meason-Smith C, Johnson TJ, Mansell J, Suchodolski JS, Rodrigues Hoffmann A. The feline skin microbiota: the bacteria inhabiting the skin of healthy and allergic cats. PLoS One. 2017;12(6):e0178555. doi:10.1371/journal.pone.0178555.
Santoro D, Pucheu-Haston CM, Prost C, Mueller RS, Jackson H. Clinical signs and diagnosis of feline atopic syndrome: detailed guidelines for a correct diagnosis. Veterinary Dermatology. 2021;32(1):26-e6. doi:10.1111/vde.12935.




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