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“Eu sempre tive cachorro. Por que parece que agora todos são alérgicos?”

Foto do escritor: Dra Iara Leles
Dra Iara Leles
31 de ago.
4 min de leitura

Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório.

Muitos tutores contam que tiveram cães durante toda a vida e não se lembram de tantos problemas de pele. Hoje, porém, é cada vez mais comum conhecer um cachorro que apresenta coceira recorrente, lambedura das patas, vermelhidão da pele ou crises repetidas de otite.

Então surge uma pergunta interessante: os cães estão realmente ficando mais alérgicos?

A ciência também tem tentado entender essa mudança.

Um artigo publicado em agosto de 2026 no Journal of the American Veterinary Medical Association (JAVMA), pela pesquisadora e dermatologista veterinária Rosanna Marsella, discute justamente como as mudanças no nosso estilo de vida, a urbanização, a poluição e até as mudanças climáticas podem estar relacionadas ao aumento das doenças alérgicas e inflamatórias da pele nos animais de companhia.

E existe um ponto importante logo de início: a genética dos nossos cães não explica tudo.

O cachorro mudou ou o mundo ao redor dele mudou?

Nas últimas décadas, a maneira como os cães vivem mudou profundamente.

Eles passaram a compartilhar cada vez mais o nosso estilo de vida urbano: permanecem mais tempo dentro de casas e apartamentos, têm menor contato com ambientes rurais, plantas, solo e uma grande diversidade de microrganismos ambientais.

Ao mesmo tempo, aumentou a exposição a poluentes provenientes do trânsito, substâncias químicas, plásticos e diversos produtos presentes no ambiente doméstico.

E esse fenômeno não aparece apenas como uma hipótese.

Um estudo realizado na Finlândia com mais de 5.700 cães encontrou maior frequência de sintomas alérgicos nos animais que viviam em ambientes urbanos. Alguns fatores associados à vida rural, como contato frequente com animais de fazenda e outros animais, estavam relacionados a menor ocorrência desses sinais.

Outro estudo, avaliando cães e seus tutores, também encontrou maior risco de características alérgicas no ambiente urbano e mostrou que esse ambiente estava associado a alterações no microbioma cutâneo tanto dos cães quanto das pessoas.

Isso não significa que morar na cidade seja, isoladamente, a causa de uma alergia.

Mas mostra que o ambiente pode participar da história.

O que o ambiente tem a ver com a pele?

Para entender essa relação, precisamos abandonar uma ideia muito simplificada sobre alergia.

A dermatite atópica não acontece simplesmente porque o cachorro “encostou em alguma coisa à qual é alérgico”.

Ela é uma doença complexa e multifatorial, resultado da interação entre predisposição genética, sistema imunológico, barreira cutânea, microbioma e fatores ambientais.

E é justamente aí que o artigo da Marsella chama atenção.

Poluentes e determinadas substâncias químicas podem provocar estresse oxidativo e lesar os epitélios. Na pele, isso pode comprometer componentes importantes da barreira cutânea, favorecer alterações do pH e interferir no equilíbrio do microbioma.

Uma barreira menos eficiente também pode apresentar maior permeabilidade, facilitando a penetração de alérgenos e contribuindo para inflamação e sensibilização alérgica. E o intestino também entra nessa história

Outro ponto interessante é que a discussão não fica restrita à pele.

Estresse térmico e outras alterações ambientais podem afetar a barreira intestinal e o microbioma intestinal. A própria dermatite atópica já foi associada a alterações epiteliais e à disbiose intestinal tanto em cães quanto em pessoas.

Pele, intestino, microbioma e sistema imunológico não funcionam como compartimentos completamente independentes.

Esse entendimento ajuda a explicar por que atualmente estudamos as doenças alérgicas de maneira muito mais ampla do que simplesmente procurar “qual é o alérgeno”.

Até o pólen está mudando

Existe ainda outro componente nessa história: as mudanças climáticas.

O aumento das concentrações de dióxido de carbono (CO₂) pode favorecer maior produção de pólen e aumentar sua alergenicidade. Paralelamente, as temporadas de polinização estão se tornando mais longas e intensas em diferentes regiões.

Calor extremo, mudanças de umidade, vento e partículas provenientes de incêndios também fazem parte das exposições ambientais discutidas pela autora.

Ou seja: não mudou apenas onde nossos cães vivem. Também está mudando aquilo a que eles estão expostos.

Então a poluição causa dermatite atópica?

Aqui precisamos ter cuidado.

Não podemos afirmar que poluição, urbanização ou mudanças climáticas, isoladamente, causam dermatite atópica em um cão.

Existem associações epidemiológicas importantes e mecanismos biológicos plausíveis, mas ainda há muito a ser estudado — especialmente porque parte do conhecimento sobre determinadas exposições ambientais vem de estudos em seres humanos.

A própria literatura veterinária, entretanto, vem acumulando evidências de que fatores ambientais e de estilo de vida podem participar do desenvolvimento e da expressão das doenças alérgicas em cães.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja:

“O que causou a alergia do meu cachorro?”

Mas:

“Quais fatores, juntos, fizeram com que a doença se manifestasse neste indivíduo?”

Afinal, por que parece que existem tantos cães alérgicos hoje?

Provavelmente não existe uma única resposta.

Temos cães geneticamente predispostos vivendo em um ambiente que mudou profundamente nas últimas décadas.

Urbanização, perda de biodiversidade ambiental e microbiana, poluentes, substâncias químicas, mudanças no microbioma, alterações da barreira cutânea e intestinal e mudanças climáticas podem interagir com o sistema imunológico de maneiras que estamos apenas começando a compreender.

Esse conceito faz parte de uma visão chamada One Health — Saúde Única: a saúde dos animais, das pessoas e do ambiente está conectada.

Nossos cães vivem dentro das nossas casas, respiram o mesmo ar, caminham pelas mesmas cidades e estão expostos a muitas das mesmas transformações ambientais que nós.

E, curiosamente, o aumento de determinadas doenças alérgicas tem sido observado nas duas espécies.

Por isso, quando um tutor me diz:

“Doutora, eu sempre tive cachorro e antigamente não tinha tanta alergia assim…”

Hoje temos uma resposta um pouco mais interessante:

Talvez não sejam apenas os cães que tenham mudado.

O mundo em que eles vivem também mudou.

E entender essa interação entre genética, ambiente, microbioma, barreira cutânea e sistema imunológico provavelmente será uma parte cada vez mais importante da dermatologia veterinária.

Referência principal: Marsella R. The impact of changing living conditions, pollutants, and climate change on allergic skin disease in our pets: highlighting our interconnectedness. Journal of the American Veterinary Medical Association. Publicado online em 19 de agosto de 2026. DOI: 10.2460/javma.26.06.0472.

 
 
 

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©2024 por Dra. Iara Leles - Especialista em Dermatologia Alergologia, Otologia e Laserterapia Veterinária. 

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